Por que eu travo no torneio?

Como vislumbrar um florescimento individual e coletivo?
25 de maio de 2020
Estamos na quadra de tênis tranquilos, trocando bola... quando o professor fala “valendo”, surge uma seriedade no ar. Quando surge seriedade, surge medo de errar, porque agora tem “algo sério em jogo aqui”. Quando surge medo, surge tensão. A tensão é a contração da mente, que produz a contração do corpo. É uma sensação que conhecemos bem: sentimos como que um aperto por dentro. A respiração já não flui direito, as pernas pesam, o movimento é dificil. Quando a bola cai de um lado linha, respiramos aliviados; quando cai 3 cm adiante, olhamos furiosos pro treinador (o verdadeiro culpado, claro) e queremos arrebentar a raquete.

Então vem a pergunta, que parece uma pergunta comum, mas é uma pergunta muito profunda: como que o jogo (que no caso do tênis é uma brincadeira construida com linhas, rede, pó de tijolo, bolinhas e raquetes) fica sério? Se formos até a raíz da questão, a resposta pode nos levar a atingir a iluminação.

Fica sério porque de repente tem a ver com a nossa identidade. Eu quero ser o vencedor, e não quero ser o perdedor. Mas por que quero ser o vencedor e não o perdedor? Porque eu não sei quem sou. Se eu soubesse de verdade quem eu sou, eu veria que a minha natureza está além de qualquer jogo, além de vitória e derrota, além de sucesso e fracasso, além desse próprio corpo, além de vida e morte.

Mas enquanto eu não sei quem eu realmente sou, eu jogo condicionado ao jogo. Não só o jogo de tênis, mas o "jogo" da bolsa de valores, dos investimentos, do trabalho, das paqueras, dos namoros, do casamento, das relações todas. Jogo com expectativa e medo, como se o que eu fosse estivesse "em jogo". Aí tem sofrimento. Sofremos antes, durante e depois. Nesse âmbito mesmo os aparentemente vitoriosos não têm paz. Os ricos nunca se sentem ricos o suficiente, os poderosos nunca acham que dominam o suficiente, e os famosos acham que podem ter mais curtidas e visualizações. Mesmo cansados disso, continuamos nos comparando com os outros e nos criticando, perseguindo um ideal que nem existe. Se houvesse vitoriosos verdadeiros, o Nadal não terminaria um torneio largando o troféu no quarto do hotel à noite já pensando na viagem para o próximo torneio.

Se eu reconheço a natureza livre da mente, eu não preciso parar de jogar. Eu jogo livre do jogo, porque eu entendo que ele não diz respeito a quem eu sou. Então eu posso fazer como o avô que joga com o neto: com um sorriso sereno e lúcido.
Lucas Ghisleni
Lucas Ghisleni
Facilitador de yoga e meditação. Graduado em Física, pós-graduado em Transformação de Conflitos e Estudos de Paz e professor do programa Cultivating Emotional Balance.

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