Como vislumbrar um florescimento individual e coletivo?

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Faço uma breve reflexão que acho relevante para esse momento que vivemos, conectando alguns conceitos como dois tipos de felicidade, materialismo, consumismo e individualismo, motivação e florescimento.

O programa do CEB (cultivating emotional balance) que tive o mérito e a benção de estudar com o professor Alan Wallace e Eve Ekman começa delineando dois tipos de felicidade. Nós temos a felicidade hedônica, comum, que é a felicidade que surge quando nós temos experiências agradáveis, prazeres sensoriais, como comer uma comida saborosa, ver um filme que gostamos, comprar algo que desejamos etc.

Veja o quanto do seu movimento passa por ver a felicidade dessa forma e ir atrás das coisas que você gosta e deseja. Nos movemos assim, fazendo esforços sem fim de puxar para perto de nós aquilo que gostamos e afastar aquilo que não gostamos e não queremos. Pensamos “eu seria feliz se…” daí vem a lista de coisas que corremos atrás. Parece que quando obtivermos aquelas coisas, enfim teremos a felicidade. Mas veja, cada vez que você alcançou um objetivo, uma meta, o que aconteceu? Curiosamente, nós não relaxamos e dizemos “pronto, estou realizado, agora posso descansar…” não, de algum modo nosso mundo interno se move e nos colocamos em marcha novamente, somos uma nova identidade atrás de novos objetivos. Aí estamos de novo, correndo exaustos, sem poder parar, porque não chegamos ainda.

Por isso que o Buda disse:

“O desejo é como água salgada. Quanto mais tomamos, mais sede sentimos.”


Porém, é por acreditar nessa felicidade hedônica, nessa felicidade que vem do que obtemos do mundo. Hedônico vem do grego “hedonia”, que se refere aos prazeres dos sentidos. É por estarmos baseados nessa felicidade que coletivamente surge o consumismo. Ouvimos coisas do tipo “abra a felicidade” e “amo muito tudo isso”.

Surge o materialismo: nossa visão fica super estreita e perdemos de vista os apectos sutis e não materiais da vida. A ciência, por exemplo, tem uma visão de mundo materialista, e numa atitude nada científica, simplesmente nega fenômenos que não sabe explicar. Reduz a mente ao cérebro, reduz os seres humanos à máquinas instintivas. E a natureza que era profundamente sagrada passa a ser fonte de recursos: nas montanhas vemos minérios, nas florestas vemos lenha ou móveis, nos rios vemos usinas hidrelétricas, nos animais vemos carne… fazemos uma devastação implacável.

Surge o individualismo: nos movemos no mundo tentando “nos tornar alguém”, vencer na vida, chegar “lá”. Se passamos por cima dos outros, paciência, faz parte, “o mundo é assim”. Muito comovente!

É só olharmos aqueles que chegaram, aqueles que acumularam riqueza e poder, se tornaram seres tão infelizes e insatisfeitos que seguem desesperados atrás de mais poder e mais riqueza. Se você “der certo” na vida, o melhor que conseguirá é estar em uma ilha particular tomando antidepressivos, remédios para dormir, protegendo seu patrimônio e seus privilégios.

Lama Padma Samten diz

“Cada coisa que a gente tem é uma coisa que nos tem. É assim que ficamos muito ocupados”

Descrevo esses exemplos para dizer que é com base nessa felicidade hedônica, transitória, condicionada que guiamos nossa vida. Mas não encontramos felciidade duradoura no mundo das coisas. O que acontece é que a vida se torna mais e mais artificial e vivemos para sustentar as artificialidades. Nossa experiência passa a ser uma ansiedade, um estresse, uma preocupação e apreensão constantes. A felicidade é super frágil e fica reduzida a migalhas.

É momento de percebermos que existe uma felicidade que não vem das coisas, não vem das circunstâncias externas, não vem do que temos ou deixamos de ter, não vem do que somos capazes de abocanhar dos outros e do mundo.

Essa é a felicidade genuína, que está ligada ao nosso equilíbrio interno, ao equilíbrio da nossa mente. Os gregos a chamam de eudaimonia. Ela está ligada ao que oferecemos ao mundo. Como é a nossa vida se tomamos por base a busca dessa felicidade mais profunda e duradoura?

Uma vez que percebemos que a felicidade não virá das coisas, nos acalmamos, e começamos a perceber que precisamos de pouco para viver. Nos conduz à simplicidade. Deixamos de vender o nosso tempo e nossa vida em troca de um salário no final do mês para comprar um monte de coisas inúteis, que nos alegram por 10 segundos depois de abrirmos a embalagem.

Como alcançar essa felicidade? Não é algo que possamos comprar, é algo que precisamos cultivar. Para ela ser possível, precisamos passar a cultivar um olhar interno, perceber a nossa mente, nossos pensamentos e emoções, e em especial a motivação das nossas ações.

Se não temos esse olhar interno, facilmente brotam em nós emoções como raiva, medo, carência, desejo e apego, inveja, orgulho, e nós sem nem ver direito nos movemos a partir delas. Sem consciência, nós somos arrastados pelos impulsos e praticamos muitas vezes ações não virtuosas de corpo, fala e mente, tais como roubar, mentir, difamar os outros, criar intrigas, cobiçar, nutrir pensamentos negativos etc.

Quando percebemos que a felicidade não será verdadeiramente possível com uma mente assim, começa o caminho internalizador. Isso produz a transformação da nossa motivação. Nossa pergunta não é mais “o que eu posso obter dos outros, do mundo”, mas “o que eu posso oferecer ao mundo?”

Nossa motivação se torna gerar benefícios para as pessoas, não estaremos mais autocentrados, pensando “eu primeiro”. Nosso movimento se tornará naturalmente benigno, compassivo, gerará bem-estar e felicidade, e nós descobriremos que a felicidade dos outros e a nossa são inseparáveis.

Nas palavras do Lama Samten:

“Não importa quanto poder ou recursos tenhamos, a felicidade dependerá de nossa dimensão de afeto, de carinho, de compaixão e de amor. O treinamento da mente permite o florescimento dessas qualidades. Se não tivermos isso, nossa vai parecer infeliz e sem sentido”

Coletivamente, nossa vida se simplifica, o que nos possibilita mais tempo, mais saúde, mais conexão com o que realmente importa. Passamos a contribuir menos para a devastação ambiental, pelo consumo desenfreado. Passamos a ter um olhar interessado não em obter prazeres para si, mas em cuidar e proteger os outros seres humanos, os outros seres da biosfera.

Não é momento de voltarmos ao que era antes, é momento de acordarmos!

Despertarmos desse sonho sofrido de individualismo, materialismo e consumismo para recuperarmos a alegria e o sentido nas nossas vidas, com uma visão e motivação muito mais amplas, de benefício, cuidado e proteção dos outros seres, tendo por base o cultivo da felicidade genuína e a liberação completa do sofrimento em todas as direções e tempos!

Lucas Ghisleni
Lucas Ghisleni
Facilitador de yoga e meditação. Graduado em Física, pós-graduado em Transformação de Conflitos e Estudos de Paz e professor do programa Cultivating Emotional Balance.

1 Comentário

  1. Cristiana Santana de almeida disse:

    Cada dia eu aprendo com quem me ensina.
    Com a natureza, os animais, o tempo, a lua , as estrelas e comigo mesma
    Sou grata tudo a Deus e. As pessoas que me dão força para estar de pé eterna gratidão D.Francisco de Assis neto só faço o que gostaria de fazer e respeito muito o meu corpo.

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