Culpa e liberação
27 de fevereiro de 2019

Em preparação para o caminho de Santiago de Compostela, pesquisando aspectos históricos, me deparei com o Codex Calixtinus, um livro atribuído ao Papa Calixtinus II, mas que foi verdadeiramente escrito por um escolar francês, no período entre 1138-1145. Um guia detalhado para peregrinos de Compostela no séc XII.

Após uma semana de peregrinação, passamos da região do País Basco para região Castilla y Leon e a placa da divisa trazia as etapas descritas no código. Eu, meu pai Plinio, meu tio José e meu primo Augusto – os três grandes companheiros que me acompanhavam – conversamos sobre as longas distâncias ali apontadas. Expus meu pensamento de que os peregrinos do passado podiam realizar aquilo, uma vez que não caminhavam por esporte, ou como passeio de férias, mas peregrinavam por devoção, por fé, em meio a condições muito menos favoráveis ou confortáveis do que hoje em dia.

Diante da afirmação de que seria impossível caminhar distâncias como 50 km por dia, me vem o sentimento de que a nossa cultura atual transborda presunção. Olhamos para o passado, para os muitos relatos incríveis e para muitas coisas que não compreendemos, e ao invés de nos humildarmos na nossa ignorância nos inflamos na nossa arrogância. Só não dizemos que as pirâmides são impossíveis porque estão em pé.
Isso foi precisamente explicado pelo gênio Leonardo da Vinci: “Pouco conhecimento faz com que as pessoas se sintam orgulhosas. Muito conhecimento, que se sintam humildes. É assim que as espiãs sem grãos erguem a cabeça desdenhosamente para o céu, enquanto que as cheias a baixam para a terra, sua mãe“

Me despedi dos meus nobres companheiros no começo da tarde, e me vi pela primeira vez de fato sozinho, com destino incerto, hospedagem incerta, caminho imprevisível. Observei duas coisas acontecerem.

A mente se agitou como em nenhum outro momento. As diversas incertezas e o meu receio diante delas produziram muitos pensamentos, muitas estratégias de como agir. Sem internet, sem reserva, pouco tempo para uma jornada tão longa.

A mente começou a ser arrastada pelos pensamentos como não havia acontecido até aquele momento. Por muitos momentos perdia completamente a percepção do ambiente, tão grande era o mergulho na mente nos receios e dúvidas sobre o que fazer.
Até que pensei: “Tu se separou deles e embarcou nessa desafio para caminhar assim? Para ficar ausente e alienado assim? Ansioso e agitado?”
Ficou explícito, límpido, ver como a mente teme. A mente busca garantias. O que é isso, senão medo?

O segundo ponto que surgiu foi que sabendo que não tinha muito tempo, comecei a caminhar rápido. Me pus em marcha firme. Caminhando decidido.
Até aquele momento, em muitos dias eu vinha cuidando a maneira de pisar, o equilíbrio da mochila e assim por diante. Aqui, me sentindo cheio de energia, experimentei como em nenhum antes, a sensação de “deixa o corpo caminhar”. Essa foi uma grande percepção e insight naquele momento.

Por fim, eu decidi que caminharia até Carrión de los Condes. Eram 3 da tarde e eu tinha 26 km pela frente, sem saber se encontraria lugar para passar a noite ou internet para me comunicar. Mas tinha confiança. E energia.
Então soltei a mente, qualquer tentativa mental de controle da situação, soltei os muitos pensamentos, as inseguranças. E soltei o corpo, qualquer controle sobre o movimento corporal. Mergulhei com soltura na caminhada. Respiração no seu ritmo natural, desobstruída, e mente tranquila e feliz. Sorriso interno. Nada a ser controlado ou buscado, ou previsto. Apenas caminhar, sem passado e sem futuro.

Com o passar do tempo, a velocidade da caminhada naturalmente foi diminuindo. E um terceiro insight surgiu: “a inteligência natural do corpo.”
A dor que começou a crescer foi nas solas dos pés, especialmente nos dedos mínimos, que já estavam frágeis dos dias anteriores.

Intuitivamente fui rotacionando e internalizando a pisada, e isso começou a produzir dor no tendão do dedão, ao dobrar.
Então pode ver o meu corpo alterando a forma de caminhar: fui me curvando mais para frente – para aproveitar a gravidade – e arrastando mais os pés, para evitar usar os dedos que doíam. Incrível! Comecei a caminhar cada vez mais semelhante a um velho! Uma vez que essa era uma disposição do corpo que o poupava de esforços maiores, exatamente como se faz necessário com o avançar da idade.
A partir dos 40 e poucos km esse curvar-se ficava difícil de evitar.

A partir disso, comecei a testar a visão de que nos três níveis que nos compõe – mente, energia e corpo -, a mente tem a supremacia. Isso significa que o corpo tem os seus processos, que até influenciam a mente, porém a mente tem a capacidade de guiar o processo global.
Isso se mostrou verdadeiro porque eu vi que se posicionasse minha mente como na meditação, concentrada, com foco na respiração, ou com foco em alguma oração ou mantra, meu corpo se colocava numa atitude mais firme. Se, por outro lado, eu deixasse a mente solta, à mercê dos pensamentos involuntários, meu corpo também ficava numa atitude de falta de energia.

Fui testando isso por todo em caminho.
Houve um momento em que lembrei do grande mestre budista Chagdud Tulku Rinpoche. Ele tinha um corpo frágil, uma saúde débil, e no entanto, teve que realizar o esforço físico imenso de atravessar as cordilheiras dos Himalaias para fugir da morte que viria pelas mãos dos chineses que invadiam o Tibete em 1959. Ele e diversos outros lamas tibetanos, incluindo o Dalai Lama, vivenciaram isso, e precisaram chegar à Índia para encontrar segurança, sobrevivência.

Pensando nessa história que muito me comove, eu senti “se eles realizaram essa travessia tão dura, em meio a neve, fugindo da morte, escondendo-se nas cavernas, com roupas e comidas escassas, com a tristeza de deixar suas terras e suas casas para trás, como poderia eu fraquejar, mesmo que por um instante?” Lembrado disso, eu sentia que poderia caminhar para sempre, o quanto fosse necessário, sentindo vivo no meu coração o amor e a compaixão incomensuráveis, por todas as pessoas, que é a energia que move os mestres no mundo.

Energia nos pés e mente tranquila. Assim segui!

Os últimos 6 km percorri recitando o mantra budista da sabedoria, prajnaparamita: experiência incrível, energia completamente presente! Em 45 min chegava à placa que anunciava a cidade dos condes.

Parada para foto e o corpo acusa a intensidade. Um estiramento na perna, lombar sentida, pés se fundindo aos tênis, dedos abraçados uns aos outros em compaixão mútua.

Vagando pela cidade, esbarrando em duas hospedarias lotadas, recebendo recomendação de uma terceira fechada a grades, acabo por bater na porta do albergue Espiritu Santo as 9 e 43.
A freira vem braba, dizendo: “eso son horas de llegar?”
Outra freira grita da porta de dentro: “que pasa esa hora, Modesta?”
“Um peregrino!”
Eu disse: “Caminé todo el día. Hay lugar para mi?”
“De donde vienes?”
“De Hontanas”
“Por Dios, venga! Mercedes, um peregrino de Hontanas, dicho que paso el dia caminando…”

E assim fui acolhido pelas irmãs Modesta e Mercedes. Se atucanaram por já estarem prontas para fechar tudo, as 10, hora que ninguém mais entra e ninguém mais sai. Meu nome e passaporte foram para lista do dia seguinte, pois a daquele dia já estava encerrada. Pegou uma tabela de cidades e mostrou: Hontanas-Carrión: 53,8 km.

Mercedes me apresentou tudo, onde tinha um banho quente, onde tinham mais cobertas caso fizesse muito frio à noite, quase arrumou minha cama pra mim. Me levou à cozinha, onde Modesta vasculhava a geladeira dizendo: “Deves tener hambre…”

Um prato deixado por peregrinos de dois dias antes e um bocadillo de queso preparado pelas mãos da irmã. Fecharam todo albergue e passaram uma última vez para perguntar se estava bom e desejar bom descanso. Ensinaram onde apagava as luzes e partiram, sorrindo. Não me ocorria nada para falar diferente de “gracias, gracias, muchas gracias”. Só um desejo no coração: agradecer.

Como pude passar das incertezas da noite para estar sentado num refeitório aconchegante, com um banho quente e uma cama quente a minha espera, e uma comida preparada por pessoas que jamais saberão da minha existência? E servida por outras que talvez não me vissem mais? Completamente comovente.

Olhava em volta e via as imagens de Maria, mãe de Jesus, a quem havia rezado ao lado do meu pai por 6 dias naquele momento. Pensei: “Isso é Maria viva. Elas são Maria. Maria está viva.”

Não tive dúvidas. Os seres passam. Maria não morre. Jesus não morre. Buda está latente. Sentado paciente.
Os seres esquecem. Os seres não veem. Os seres passam. A natureza primordial fica intacta. Por Modesta ou Mercedes, o mundo se revela amor, o mundo se revela pura generosidade. Que sempre tenhamos olhos que veem!

[Texto escrito dias após a experiência ocorrida em 22 mai. 2019. Revisado e compartilhado com grandes amigos no Espaço Maitri, em Canoas, Brasil, a 1 jun. 2019].


Lucas Ghisleni
Lucas Ghisleni
Professor de yoga e meditação do Espaço Maitri. Graduado em Física, pós-graduado em Transformação de Conflitos e Estudos de Paz e professor do programa Cultivating Emotional Balance.

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