A crítica, o elogio e a natureza livre da mente
27 de fevereiro de 2019

Como me libero da culpa por coisas que fiz? E da preocupação com a imagem que os outros possam ter de mim?

Inspirado pela conversa com uma grande amiga, ofereço algumas palavras sobre este tema.

Por maior que seja o meu esforço em praticar o bem e não causar sofrimento à ninguém, sempre pode acontecer de eu realizar alguma ação que venha a causar sofrimento. Não precisa ser necessariamente uma ação que eu pratiquei com má intenção, por vezes mesmo uma ação bem intencionada, por um motivo ou outro pode ser mal recebida e causar algum dano a outra pessoa.
O problema se instala quando eu olho para a ação que pratiquei e penso “que coisa horrível que eu fiz, que horror, eu sou um monstro”. Não precisa nem ser tão dramático, pode ser um “como fui capaz de fazer isso? Não mereço tal coisa”. Esses pensamentos geram em mim uma identificação com aquela ação, eu penso que de alguma forma sou aquilo, e me culpo por ser assim. Ou seja, anexo características ou qualidades negativas à minha identidade, à imagem que tenho de mim mesmo, e sustento aquela visão como fixa, verdadeira. Me culpo por ser assim e isso se torna pesado para mim. Mas a boa notícia é que a realidade não é essa!

Podemos observar que a culpa é um reforço da nossa identidade.

A perspectiva que nos liberta é reconhecer que nós não somos aquilo que manifestamos. Eu mesmo, bem como todas as pessoas, manifestamos constantemente a nossa paisagem interna, o lugar onde nossa mente está posicionada, o estado mental em que estamos. Por isso é que um dia sou de um jeito, noutro dia sou de outro, e assim por diante. Mas, mesmo que eu repita certas coisas, certas atitudes, elas nada mais são do que hábitos, e eu não sou elas! Eu sou a liberdade de me manifestar de diferentes modos.

Por essa perspectiva, derramando essa visão sobre mim e sobre os outros, eu percebo que existe uma liberdade e uma leveza sempre presentes.

Percebo que o processo se dá da seguinte forma: me perturbo com alguma coisa, minha mente se estreita então minha motivação tende a ser autocentrada, e por consequência minha ação não virtuosa, gerando assim sofrimento para mim e para o outro. O sofrimento surge porque quando estou com a mente estreitada eu manifesto ações negativas, pesadas, perturbadas que decorrem dessa motivação autocentrada.

Por outro lado, quando estou sereno, estou com a mente ampla, podendo ver e compreender os outros. Nesse estado, a minha motivação é compassiva e minhas ações decorrentes são virtuosas, produzindo bons resultados em geral.

Nessa perspectiva de que não há fixidez, somos manifestações incessantes de estados mentais – mais amplos e positivos, ou mais estreitos e negativos – não sobra espaço para culpa! Surge uma leveza na visão sobre as pessoas e o mundo, e faço o voto de manter minha mente ampla, sem me perturbar diante das coisas, para que minhas ações possam ser virtuosas e eu possa produzir felicidade em todas as direções.

Ainda assim, pode surgir a pergunta: e se eu agi com a melhor das intenções e o outro acabou sofrendo, como fica isso? O que posso fazer?

É interessante reconhecermos que não temos como ter uma ação perfeita. De algum modo, geramos um impacto, um dano para o nosso entorno. Por exemplo, enquanto respiramos, caminhamos e comemos, estamos prejudicando seres. Estamos sobrevivendo pelo sacrifício de muitos. Essa contemplação remove nossa expectativa de sermos perfeitos, sermos bem vistos por todos. Devo perceber que posso dar o meu melhor, e ainda assim ser mal interpretado, criticado e condenado.

Portanto, devemos primeiro relaxar dessa expectativa, e reconhecer que por mais que queiramos ter, não temos controle sobre como os outros nos interpretam, como recebem nossas palavras e vêem nossas ações.

O que posso fazer, é olhar para o meu interior, para minha motivação, e garantir que em cada pensamento, palavra e ação, eu tenha a motivação mais pura, a motivação mais ampla e positiva que eu posso ter. Fazendo isso, naturalmente surge uma tranquilidade nos nossos corações. Surge uma serenidade de pensar que o melhor foi feito. E uma compreensão: o outro pode estar me vendo a partir de uma mente negativa, pode não me compreender e construir uma imagem errônea de mim. Tudo bem se for assim, a visão de cada um está além do nosso controle!

Ainda assim, nessa circunstância, eu tenho duas opções: posso seguir por perto ajudando-o a ampliar a sua mente para assim conseguir ver mais claramente, ou posso tomar uma distância e me manter rezando compassivamente para que a clareza surja na sua mente.

Que todos sejam livres da culpa, do peso, e repousem no estado natural de abertura, leveza e serenidade da mente!

Lucas Ghisleni
Lucas Ghisleni
Professor de yoga e meditação do Espaço Maitri. Graduado em Física, pós-graduado em Transformação de Conflitos e Estudos de Paz e professor do programa Cultivating Emotional Balance.

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