A crítica, o elogio e a natureza livre da mente

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Tive uma conversa com uma grande amiga, que compartilhou a experiência de ver uma pessoa comentando sobre o seu professor: “ele é uma pessoa maravilhosa, super incrível…”

É interessante vermos que quando criticamos alguém, nós estamos fixando a pessoa em uma imagem negativa. Em geral, se a pessoa está manifestando algo negativo, nós temos a tendência a julgar e criticar. Isso é expressão de não estarmos compreendendo o que se passa com a pessoa. Nós não vemos aquela manifestação como algo que a pessoa está manifestando, mas a partir da tendência da mente de fixar a realidade, nós tendemos a pensar “essa pessoa é assim”, e portanto, criticamos, condenamos, culpamos e assim por diante.

No estudo das emoções, isso é chamado de realizar uma fusão cognitiva: fundir a pessoa com a atitude ou comportamento que ela manifesta. Porém, ao fazer isso, perdemos de vista que a natureza das coisas é aberta, livre, e que as pessoas são manifestações sucessivas dos diferentes conteúdos que perpassam seus corações.

O mesmo vale para esse exemplo inicial. O elogio pode também aprisionar o outro. Se crio uma imagem de que o outro é uma pessoa elevada, talvez perfeita, infalível, sempre bondosa e calma ou algo desse tipo, posso estar colocando o outro numa caixa que pode se revelar incômoda, no mínimo. Manifestando isso, o outro pode se sentir sem espaço, encurralado por essa imagem, e acabar sofrendo com isso.

Assim com o outro pode gerar uma identificação com a crítica, e se perturbar e se perder naquilo, pode também se identificar com o elogio, e entrar na identidade do “ser elevado”. Isso pode na própria mente da pessoa gerar um aprisionamento, que vai deixá-la sem espaço para manifestar outras coisas, expressar sentimentos ou comportamentos que não condizem com o do “ser elevado”. A pessoa vai parar dentro de uma bolha e ficar representando aquela identidade.

Descrito isso, que são os processos de identificação tanto com a crítica quanto com o elogio, ambos gerando aprisionamento e sofrimento, mesmo que sutil, devemos lembrar da natureza livre da mente.

Não importa o que temos manifestado nos últimos tempos (ufa!), o processo ocorre assim: quando a pessoa está em paisagens internas mais apertadas e negativas, quando está com a mente mais estreita, ela está com a própria visão contaminada por emoções destrutivas, como ódio, inveja, arrogância e assim por diante. A partir dessas emoções surgem impulsos negativos. A pessoa seguindo esses impulsos, ela tende a manifestar ações não-virtuosas no mundo, como matar, roubar, mentir e assim por diante, que acabam por gerar problemas e sofrimentos para si e para os outros.

Quando a pessoa está em paisagens mais amplas e mais positivas, a mente e o olhar estão mais amplos, a visão da pessoa está mais clara. Ela não está no meio de uma confusão e aflição emocional, mas existe um espaço interno, uma calma. Dessa mente mais espaçosa, naturalmente brotam qualidades como amor, compaixão, alegria, generosidade e assim por diante, e a pessoa se movimenta no mundo manifestando ações virtuosas, que são ações benéficas, que produzem felicidade, para si e para os outros.

Contemplando essa operação da mente, entendemos que os seres não são aquilo que manifestam, mas são a liberdade de manifestar diferentes emoções e comportamentos. Quando olhamos para alguém que tem manifestado coisas negativas, não vamos criticar, mas vamos nos perguntar “Será que essa pessoa está feliz? Será que está em paz?” E lembramos dos momentos da nossa própria vida em que nos perturbamos com algo, o que falamos e fizemos? E quando estávamos com o coração tranquilo, a mente calma, o que falamos e fizemos?

Se alguém está manifestando negatividades, é porque não está em paz, mas está de alguma forma preso em uma visão negativa, estreita, possivelmente sufocante, de si mesmo e dos outros. Podemos reconhecer que muitas vezes essa foi a nossa própria situação, e assim não criticamos, vemos que não há culpados. Reconhecemos que a verdadeira culpada é a estreiteza da visão (avidya). Além de não criticar, acabamos por aspirar que a pessoa possa sair daquela condição e se equilibrar. Mais adiante, nossa compaixão se amplia, e aspiramos poder efetivamente ajudar a pessoa de alguma forma.

Por outro lado, se a pessoa tem manifestado virtudes, coisas positivas, nós nos alegramos, e agradecemos: “obrigado por ter nos oferecido o melhor do teu coração, que sigas assim, beneficiando as pessoas”. Não vamos fixar a pessoa nem mesmo na positividade. Para que no dia em que ela se perturbar e oscilar, cometer erros ou machucar os outros, nós possamos acolher e cuidar dela, ao invés de, por exemplo, nos chocarmos pela nossa visão idealizada, de perfeição, ser abalada ou destruída.

Que nunca percamos a visão profunda das coisas. Que superemos o olhar fixador, condicionado, que congela o outro em certas identidades. Que mantenhamos nosso olhar amplo: um olhar que oferece liberação a todos os seres em todas as direções e tempos!

Lucas Ghisleni
Lucas Ghisleni
Professor de yoga e meditação do Espaço Maitri. Graduado em Física, pós-graduado em Transformação de Conflitos e Estudos de Paz e professor do programa Cultivating Emotional Balance.

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