Não há inimigos. Somos todos seres humanos.

A fragilidade da vida
15 de agosto de 2018

Somos Seres Humanos

Diante da situação que vivemos, de aflição generalizada e diante de manifestações pró Bolsonaro, de pessoas muito próximas – familiares e amigos – surgiu este texto, que carrega a essência da minha compreensão.

O discurso ou a visão militar é uma visão que elege inimigos. Por isso não vejo verdade.

Não há inimigos. Somos todos seres humanos.

Eleger inimigos e se colocar como a força que vai impedir o domínio do mal é uma estratégia de manipulação mais antiga que a humanidade. Ela funciona porque nos engatilha nos nossos medos e nos domina.

Apontar certo grupo de pessoas como fonte dos problemas, da destruição dos valores, da degradação social é o primeiro passo. Sem ingenuidade, veja como essa visão está dominando a mente das pessoas!
Junto com o inimigo rotulado, surge o herói nacional.

O passo seguinte é praticar atos de violência, com a justificativa de eliminar o mal.

Esse é o princípio de toda guerra, de toda violência. Ao invés de sentar em roda, entendendo que todos somos responsáveis pelos problemas que enfrentamos, e buscarmos soluções que contemplem e cuidem de todos, a estratégia é desumanizar um grupo de pessoas e colocar nas costas delas os males que afligem a todos. O sintoma disso é que não falamos “seres humanos”, falamos “bandidos, vagabundos, drogados, traficantes”, e também “inadimplentes, desempregados, esquerdistas, comunistas”. Somos seres humanos.

Os alemães apontaram para os judeus. Os americanos apontam para os comunistas. E para os terroristas. Os árabes apontam para os cristãos.

Porque insistimos com isso, se nunca surgiu felicidade, mas um mar de sangue e sofrimento? Porque achamos que uma vez mais será diferente?

O que precisamos fazer agora é o que precisamos manter para sempre: redes compassivas de escuta e sonho elevado.

Como diz Lama Padma Samten (https://gauchazh.clicrbs.com.br/…/lama-padma-samten-precisa…):

“Quando sentados em roda, nos olhamos diretamente e pensamos sobre o que está andando bem e como melhorar nossas vidas, brilha a inteligência compassiva fundadora das redes que dão sentido a nossas vidas. Somos então capazes de entender e acolher as visões e os mundos dos outros, e surge a auto-organização como a capacidade coletiva de criar soluções práticas e ações em meio ao mundo.

Nosso desafio presente é acionar a inteligência da rede compassiva e definir nossas prioridades e visões de futuro. Assim uma nação é fundada. Precisamos ultrapassar o estreitamento da visão herdada do passado colonial que nos coloca na posição inferior de criar e sustentar uma elite e dela demandar as soluções que nunca vêm.

Quando olhamos os países que tiveram êxito dentro da visão econômica mas enfraqueceram as redes de inteligência compassiva, vemos que atualmente se defrontam com epidemias como depressão, mortes por overdose, suicídios, violência nas escolas, TDAH, expansão da população carcerária, endividamento dos governos e da população, violência urbana, concentração de poder e renda, sectarismo, radicalismo – as pessoas perderam o sentido de suas existências. Não é disso que precisamos.

A agenda das eleições finda com a divulgação dos resultados. A agenda das redes de inteligência compassiva é permanente, a transformação é silenciosa, mas visível.”

Que possamos sustentar visões amplas, mesmo diante de tantos que adotam visões sectárias, excludentes, violentas.

Que possamos sustentar um olhar amoroso, que vê, ouve, reconhece e entende a todos, sem distinção. Que possamos sustentar um olhar compassivo que acolhe e trabalha por gerar benefícios e superar o sofrimento em todos os níveis. Que possamos nutrir as redes compassivas, que são o verdadeiro coração da existência humana.

Que o ódio se dissolva. Que a bondade prevaleça!

Lucas Ghisleni
Lucas Ghisleni
Professor de yoga e meditação do Espaço Maitri. Graduado em Física, pós-graduado em Transformação de Conflitos e Estudos de Paz e professor do programa Cultivating Emotional Balance.

1 Comentário

  1. Andiara Albuquerque disse:

    Lindo e profundo texto, Lucas! Serve para refletirmos sobre essa questão tão séria e triste que nos circunda…

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