A fragilidade da vida

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Um tempo atrás, eu caminhava na calçada em frente ao Hotel Alpenhaus em Gramado, quando me deparei com um corpo no caminho. Era o corpo de um pássaro. Me acoquei para ver de perto: um passarinho de uma coloração muito bonita. Pelo toque, pude sentir a suavidade das penas e a delicadeza do corpo. Porém, um corpo abandonado.

Tomei este passarinho surgido em meu caminho como uma lembrança da fragilidade da vida. Este é um assunto que me toca profundamente.

Aqui estamos nós, neste corpo, nesta mente, com uma sólida sensação de existência. E assim vamos nos movendo a cada dia, pra lá e pra cá. Sem pensar ou refletir sobre essa questão. Porém, é importante perceber como as coisas são: impermanentes. Como tudo está mudando a cada momento, seja a nível grosseiro, como o dia virando noite, seja a nível sutil, como um pensamento originando o próximo.

Tudo em constante mudança. Um instante de consciência é diferente do instante seguinte, nunca há permanência, nunca há repetição. No meio disso, segue o nosso movimento.

Vamos pra lá e pra cá, sempre atrás de algo que aparece diante dos nossos olhos – qualquer estímulo sensorial – ou por trás dos nossos olhos – algum pensamento, emoção, memória ou fantasia. Tudo aparências na mente, que vão guiando o nosso movimento.

E assim voava o passarinho, também indo atrás de algo que lhe atraía. Talvez o reflexo de si mesmo na vidraça do hotel. O voo interrompido abruptamente pelo vidro foi intenso demais para o seu delicado corpo resistir.

E assim é. No budismo se diz que todos os fenômenos surgem por causas e condições. A morte é o fenômeno de colapso do corpo, de enfraquecimento da respiração, até que a conexão do corpo com a mente se perca e a energia vital cesse. Lá pelas tantas, nos encontramos com a causa da nossa morte, com as causas que vão nos levar a viver esse processo. Pode ser qualquer uma, inclusive uma vidraça. E não há mais o que fazer.

Por isso é interessante contemplarmos a impermanência de todas as coisas. Cientes da morte, nos tornamos cientes da preciosidade da vida. Essa consciência serve de referência para agirmos de acordo com o que realmente importa. Não mais perdermos tempo com desavenças, com avarezas e pequenezas, com conversas inúteis…

É comovente. O passarinho voava atrás de algo que pareceu interessante. Viu a sua felicidade ali, estava confiante. Acabou barrado por um obstáculo que lhe custou esta vida. Assim nós vamos também. Vamos voando por aí, atrás de aparências interessantes, aparências onde depositamos nossa felicidade. Buscamos tempos por alguém que nos complete, e quando enfim casamos pensamos “agora sim, felicidade!”. Mas o “agora sim” geralmente vira um “ainda não”.
Lá pelas tantas, parece melhor separar, não dá mais. Aí separamos. Agora sim… Até que apareça um outro ser fascinante para o qual olhamos e pensamos “Agora sim!”.

E assim vamos indo, até encontrarmos com a vidraça.
Podemos passar uma vida inteira sem perceber isso. Podemos passar uma infinidade de vidas sem perceber isso: que não vamos encontrar o que buscamos olhando pra fora. Mas somos persistentes, tentamos por vidas e vidas. É tudo o que fizemos até hoje.

Aí vem o ensinamento do buda, da vida humana preciosa. Poucas vezes ganhamos uma existência com a capacidade de olhar para dentro. Poucas vezes estivemos na condição de ouvir ensinamentos, de observar a nossa existência, de entender como funciona a nossa mente. Poucas vezes estivemos na condição de meditar e buscar uma compreensão e realização que nos libere da existência cíclica, do samsara.

Samsara se refere a essa ciclicidade de uma e outra vez nos engajarmos em relações com coisas e pessoas acreditando que nos farão felizes. Damos nascimento a nós e ao outro dentro de relações condicionadas, desenvolvemos apego quando as coisas vão bem e aversão quando não vão tão bem. E mais cedo ou mais tarde, a impermanência se manifesta e a relação tem que terminar. Então, experimentamos uma dor de morte. O buda explicou que por incontáveis vidas estamos operando desta forma.

Melhor reconhecermos a preciosidade desta vida e ultrapassarmos a experiência cíclica que surge do olhar externalizado, que busca a felicidade fora. Melhor nos engajarmos no caminho, na prática de um olhar internalizado, que busca auto-conhecimento e busca localizar em si mesmo a fonte do bem-estar, da paz e da felicidade. Localizar nas profundezas da consciência aquilo que está além de nascimento e morte.

E quando encontramos algum ser que jazeu em nossa frente para nos mostrar a fragilidade da vida e nos lembrar da vida humana preciosa, tomamos como um grande ensinamento. Tomamos como um sacrifício sagrado para nosso benefício.
Honrei a existência e o sacrifício daquele pequeno ser colocando seu corpo de volta na terra, para que servisse de alimento a muitos outros seres e rezei para que, o mais rápido possível, ele obtenha um renascimento humano precioso e possa praticar e alcançar a liberação!

Lucas Ghisleni
Lucas Ghisleni
Professor de yoga e meditação do Espaço Maitri. Graduado em Física, pós-graduado em Transformação de Conflitos e Estudos de Paz e professor do programa Cultivating Emotional Balance.

3 Comentários

  1. Silvia dorian disse:

    Nossa que lindo ensinamento querido.
    Que lindo momento de impermanência.
    Gratidão 🙏🙏🙌🏼

  2. Vladimir Navas disse:

    Muito lindo. Muito profundo. Bom que todos pudessem entender esse recado maravilhoso sobre a fragilidade da vida. Certamente deixariam de lado o egoísmo, o ciúmes, a inveja e outros tantos sentimentos que nos fazem reféns.
    Com certeza o valor da vida seria outro, valorizariam mais o Amor, a Bondade, a Fraternidade e os mais nobres sentimentos que de fato nos trazem a liberdade e a paz interior.

    Um abraço meu querido !

  3. Inês disse:

    Fico muito bem impressionada ctigo Lucas, tão jovem e ao mesmo tempo tão sábio, tão sensível…
    Com palavras que nos trazem conforto e paz
    Sempre estás nos nossos corações, seja como mestre, professor que foste do meu filho Gabriel que é autista, seja como está pessoa linda e humana que és
    Grande beijo
    Inês

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