O que a falta de combustível pode nos ensinar?

Espelho espelho meu, existe alguém que se cobra mais do que eu?
11 de maio de 2018

Nesse momento, em que a nossa vida em sociedade sofre um baque, a partir da falta de combustível, crucial para o nosso transporte e distribuição de bens, o que posso fazer? Como posso olhar para essa situação?

Se estou preocupado comigo mesmo, ou se sou uma mãe de família preocupada comigo e com os meus filhos, ou se ainda, sou um empresário preocupado com a minha empresa e seus mil funcionários, como posso lidar com isso?

A partir da paralisação do combustível, vamos vendo o sucessivo reflexo nas demais áreas da sociedade, as quais não tínhamos consciência de que seriam impactadas. Considero que contemplar esse processo é um grande passo para percebermos, de forma profunda, como é a nossa vida: em rede.
Viver em rede significa que vivemos conectados uns aos outros, que as nossas escolhas e ações impactam diretamente aqueles que são próximos, e indiretamente, impactam a todos na sociedade.

Esse é um conceito central da filosofia budista, chamado de interdependência. Ele é representada pelo símbolo do nó sem fim, ou nó infinito, entalhado na porta do Espaço Maitri.

Nossas vidas estão todas conectadas, e nosso movimento no mundo repercute, com mais ou menos força, naqueles que nos cercam. Isso não significa que eu não tenho a minha autonomia e individualidade, mas significa que, mesmo que não percebamos, constituímos uma teia sagrada de interdependência. A roupa que visto, a comida que como, o celular que uso, e tudo que existe na minha vida, passou pelas mãos de muitas pessoas, e possivelmente até custou vidas. Devo encher o meu coração de gratidão e compaixão tendo esse pensamento em mente.

Sendo assim, como poderia eu buscar desesperadamente pela minha felicidade, ignorando ou sendo insensível ao sofrimento e as dificuldades que passam tantos que me cercam? Ou como poderia eu me preocupar exclusivamente pelas dificuldades que a falta de combustível cria pra mim?

A conclusão natural a qual chegamos a partir do reconhecimento da interdependência, é que a minha felicidade e bem-estar passa necessariamente pela felicidade e bem-estar dos outros.

Então é melhor eu perceber que se falta combustível no meu carro para ir ao meu trabalho, também falta no carro do meu vizinho. Que a empresa ao lado também terá prejuízos. E me perguntar: Como podemos nos compreender e ajudar uns aos outros nesse momento? Mesmo quando não percebemos, estamos todos no mesmo barco.

Quando assumimos uma postura autocentrada, que significa “eu preocupado exclusivamente com os meus problemas, minhas dificuldades”, é inevitável que ficamos cegos a situação dos outros. Ficando cegos, nosso coração se torna frio, insensível às dificuldades alheias. Achamos que é cada um no seu barco e salve-se quem puder, mas isso não é verdade, isso é apenas medo e autocentramento.
Inevitavelmente, as escolhas e decisões que surgem de uma mente estrita, focada em si mesmo, acabam por gerar sofrimento aos outros, por que pensa somente no seu bem imediato, e não considera as repercussões, o impacto sobre os outros seres.

Agora, quando situações calamitosas como a falta de combustível, me convidam a ampliar a minha visão e entender a forma interconectada, interdependente que vivemos, posso transformar a minha percepção e passar a estar atento à real condição dos que me cercam, e como minhas ações impactam nas suas vidas.

A cura para o meu próprio sofrimento passa por abrir o meu coração para a presença do sofrimento no mundo, para além da minha bolha de realidade, da minha própria pessoa. Quando deixo de operar a minha mente de forma autocentrada, interessado na “minha” felicidade, e entendo que não existe um bem-estar verdadeiro que ignora a condição dos outros, opero a minha mente com uma visão ampla, e me movimento com a motivação de gerar benefícios e evitar causar danos e sofrimento aos outros seres.

Pela existência da teia sagrada de interdependência, o autocentramento é fonte de dor e sofrimento, para mim e para os outros, e a liberação dessa condição estreita da mente, acaba por ser fonte de benefício e felicidade.

Nas palavras do grande mestre indiano do século VIII, Shantideva:

Toda a alegria que existe no mundo
Vem de querer felicidade para os outros.
Todo o sofrimento que existe no mundo
Vem de querer felicidade para si mesmo.

Realizado este profundo reconhecimento, essa transformação do olhar, o que mais posso fazer?
Todas as experiências que vivemos são oportunidades de ampliarmos o olhar e geramos compreensão. Adquirindo compreensão, o que podemos fazer é, na medida do possível, ajudar os outros a compreenderem, ou seja, ampliar a compreensão e a paz no mundo, e minimizar a incompreensão e os conflitos.
Mas o que posso fazer para ter combustível logo, para evitar que faltem alimentos, evitar que pessoas morram sem poder ir ao hospital?
Devo reconhecer que não tenho controle sobre as ações dos outros. Reconhecer que, essencialmente, nada está sob controle, além da possibilidade de, na minha conduta, evitar ações que causem sofrimentos, promover ações que gerem benefícios e dirigir a minha própria mente.

Tashi delek!

Lucas Ghisleni
Lucas Ghisleni
Professor de yoga no Espaço Maitri.

2 Comentários

  1. Esther disse:

    É uma verdade incontestável, Parabéns, jovens, maduros , com certeza irão mudar para melhor o mundo em que vivemos, bj

  2. Plínio Jacobi disse:

    De fato, uma leitura curta, fácil, inteligente e muito esclarecedora, especialmente nesta nossa época de “interconexões de redes” eletrônicas tipo “internet”. Não imaginava que esse “Buda” (favor não confundir com “Nádega”) fosse tão perspicaz e, sem dúvida, inteligente.

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