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Talvez o primeiro reconhecimento que seja interessante de fazermos é de como funciona a nossa mente no dia-a-dia. Ao longo de um dia, existem os vários acontecimentos externos, mas também os acontecimentos internos. Isto é, os muitos pensamentos que temos, as emoções que brotam, que vão e que vem, as memórias e lembranças que aparecem. Todo esse movimento do nosso mundo interno é engatilhado pelo mundo externo, pelas aparências diante de nós.

Há muito que se dizer sobre este processo, de movimento da mente, da energia e do corpo. O budismo inteiro trata de explicar como a mente opera. Porém, nesse primeiro momento, basta que percebamos como nossa atenção é constantemente levada de um lado para o outro, como um macaco pulando de galho em galho. Os indianos são implacáveis: dizem que a mente é como um elefante no cio.

Podemos tomar um exemplo: alguém sentando para estudar. A pessoa põe um livro diante de si. Se propõe a realizar um estudo de meia hora. Nos primeiros minutos, até vai, a atenção está no livro. Mas logo a mente voa para algum lugar mais interessante do que o livro – “quantas coisas eu poderia estar fazendo se não tivesse que estudar isso…” – ou mais urgente – “esqueci de pagar aquele boleto!” Ao final, percebemos que foram 5 minutos de estudo e 25 minutos de luta com a mente, de esforço para mantê-la ali. Isso se conseguimos ficar os 30 minutos sentados…

Podemos contemplar como é assim em todas as situações: no trabalho, na escola, em casa, conversando com alguém… e como isso acontece para todas as pessoas, e mais, para todos os seres que tem uma mente.

Porque a mente tem essa liberdade natural de esvoaçar para todo o lado. Isso é chamado no budismo de originação dependente. É a capacidade da mente de criar incessantemente, de engatar um pensamento em outro, e outro, e outro, num processo sem fim. Além de criar, a mente segue esses pensamentos e sentimentos, que são a sua própria criação. E não há problema algum nisso. É natural.

O problema é não termos liberdade. Não vermos que este é o processo que está acontecendo, instante após instante de consciência. As situações do dia-a-dia atestam isso. Tentamos focar a mente em algo, mas não conseguimos, somos levados embora. Embarcamos em pensamentos sobre o passado, memórias, experiências agradáveis ou desagradáveis, e pensamentos sobre o futuro, planos, imaginações, projetos, expectativas, medos, e assim por diante.

Fazendo esse primeiro reconhecimento de que a mente opera assim, baseada nas suas próprias flutuações e modificações, e que somos em maior ou menor medida reféns disso, concluímos que para termos liberdade, precisamos treinar. Assim, a meditação começa como um treinamento da atenção. Um treinamento que visa a liberdade.

Sentamos. Esse sentar significa encontrar uma postura estável para manter o corpo imóvel por um tempo. Pode ser no chão de pernas cruzadas, ou se isso for difícil, pode ser em uma cadeira, sem se encostar. Mantemos a coluna ereta, de forma a poder ter espaço para respirar.

Elegemos um objeto para colocar a nossa atenção. Pode ser um objeto externo, como uma pedrinha à nossa frente, ou um objeto interno, como a nossa respiração. O objeto não é importante. O que importa é o nosso treinamento: manter a atenção ali, não mais ficar distraído. Quando percebermos que um pensamento atraente apareceu e nos seduziu, de forma que a mente está indo atrás, sendo absorvida por esse pensamento, nossa atitude é sempre a mesma: seja o pensamento bonito, importante ou trivial, apenas deixamos que ele siga o seu fluxo, e trazemos a mente de volta. Sem impaciência, trazemos a mente gentilmente de volta ao nosso objeto meditativo, quantas vezes forem necessárias. Isso é cultivar foco, concentração. Estabilizar a mente.

Podemos começar a meditar assim, em tempos de 5, 10 minutos, ou mais. Introduzimos pelo menos uma sessão de meditação por dia. Isso já começa a transformar a nossa mente, e portanto, a nossa vida. No começo é difícil, mas com o tempo vamos nos familiarizando.

Após esta prática formal, quando levantamos da almofada, levantamos com uma atitude e determinação de estarmos mais atentos ao longo do dia. Assim fazemos da nossa própria vida uma prática. Podemos em todas as nossas ações, nos perguntar: “enquanto estou fazendo isso, onde está a minha mente?”. Pouco a pouco, com prática e paciência, a mente começa a ficar mais tranquila e mais presente. Mais semelhante à imagem deste post.

Um grande ensinamento que ouvi da professora de meditação Susan Piver: “Quando nossa mente e nosso corpo estão em lugares diferentes, nossa experiência é de estresse. Quando nossa mente e nosso corpo estão no mesmo lugar, nossa experiência é de paz.”

E o grande mestre taoísta Lao Tsé disse: “Se você está deprimido, você está vivendo no passado. Se você está ansioso, você está vivendo no futuro. Se você está em paz, você está vivendo no momento presente.”

Começando a meditar, damos os primeiros passos na direção de encontrar dentro de nós aquilo que buscamos: paz e felicidade. Boa prática!

Que haja virtude!

Lucas Ghisleni
Lucas Ghisleni
Professor de yoga e meditação do Espaço Maitri. Graduado em Física, pós-graduado em Transformação de Conflitos e Estudos de Paz e professor do programa Cultivating Emotional Balance.

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