As linhagens da yoga

Canoas Tênis Clube vive uma grande transformação
13 de março de 2018
Boas perguntas sobre yoga
12 de abril de 2018

A yoga é um conjunto de práticas ou disciplinas físicas, mentais e espirituais que se originaram na Índia Antiga. Há uma ampla variedade de escolas, práticas e objetivos da yoga, relacionadas ao Hinduísmo, Budismo, Jainismo e até Sufismo. Entretanto, a yoga pode ser praticada por qualquer pessoa independente de sua religião, porque é um caminho de auto-conhecimento, e auto-conhecimento não requer qualquer visão metafísica. Requer auto-observação. Requer prática.

Como veremos, a yoga possui muitas vertentes, muitas linhagens. Muitas formas de se praticar e ensinar yoga.

Minha intenção com este texto é esboçar um panorama para conseguirmos entender qual a relação entre as várias escolas que encontramos hoje em dia. Naturalmente, precisamos voltar no tempo para entender a origem das coisas, porém só como um sobrevoo: nosso foco é visualizar os diversos ramos da yoga atual.

Um pouco sobre a história da yoga

A primeira menção conhecida ao termo “yoga” data do século XV a.C., nas escrituras mais antigas da Índia, os Vedas, mais precisamente, no Ṛg Veda.

No século III a.C., no Kaṭhaka Upaniṣad se encontra a descrição da yoga a partir da filosofia sāṃkhya. Esta visão embasa as obras tidas como tradicionais da yoga: O Bhagavad Gītā e os Yoga Sūtras de Patañjali.

Como ensinamentos principais destas obras, podemos destacar no Bhagavad Gītā os quatro caminhos, quatro margas, da yoga: Karma yoga, caminho da ação. Bhakti yoga, caminho da devoção. Rāja yoga, caminho da meditação. Jñāna yoga, caminho do conhecimento. Os Yoga Sūtras de Patañjali descrevem a ashtanga yoga, isto é, a yoga de oito membros: yamas, restrições, niyamas, observâncias, āsanas, posturas, prāṇāyāmas, exercícios respiratórios, pratyāhāra, abstinência dos sentidos, dhāranā, concentração, dhyāna, meditação e samādhi.

Ainda assim, é interessante observar que essas duas fontes da yoga clássica, tradicional, antiga, virtualmente ignoram posturas e controle da respiração, cada uma dedicando não mais de dez versos a essas práticas. Elas estão interessadas na questão da salvação humana, realizada através da teoria e da prática da meditação.

Desde este período crescem as referências a yoga nos textos, alcançando o apogeu entre os séculos IV e VII d.C. Escolas e obras desse período que podemos citar:

Séculos III-IV: Escola Budista Yogācāra; Séculos IV-V: Visuddhimagga, de Buddhaghoṣa. Século VIII: Yogadṛṣṭisamuccaya do autor jainista Haribhadra.

No século X surge na Índia o Tantra. Os Tantras trazem uma nova abordagem à yoga: além de introduzir novas técnicas como visualizações, deidades e mantras, apresentam um construto conhecido como “corpo sutil” ou “corpo yogico”, que é a descrição dos nāḍīs, canais, e cakras, centros do prāṇa, energia vital do corpo. Ocorre também a introdução da kuṇḍalinī, a serpente feminina que vive adormecida enrolada na base do corpo sutil, que corresponde à base da coluna espinhal, a qual pode realizar o movimento de despertar e ascender pelo canal central, suṣumṇā nāḍī.

Assim, no século XI, surge o haṭha yoga como uma ciência da respiração e do corpo sutil. Esses primeiros textos são, por exemplo, Yogavāsiṣṭha e Gorakṣa Śataka (Os cem versos de Gorakṣa).

No século XV aparece o texto mais influente da haṭha yoga, o Haṭha yoga pradīpikā, ou Haṭha pradīpikā, compilado por Swami Svātmārāma. O grande legado da haṭha yoga à modernidade é a combinação de āsanas, posturas, prāṇāyāmas, técnicas de controle da respiração, bandhas, travas/fechos e mudrās, selos, na sua prática.

Do século XV a XVIII Brahmanes do sul da índia produziram novos trabalhos bebendo de fontes como o tantra hindu e da haṭha yoga. No século XVIII Śaśidhana, autor da obra sobre yoga, Vairagyaṃvara, e fundador da seita Josmanī, no Nepal, era ativista político e social, antecipou as agendas dos indianos fundadores da yoga moderna do século XIX, Swami Vivekananda e Sri Aurobindo.

Yoga moderna

Swami Vivekananda (1863-1902) é considerado o pai da yoga moderna. Introduziu com sucesso o rāja yoga às audiências ocidentais no Parlamento Mundial de Religiões, em Chicago, 1892. Para ele, o rāja yoga, ou “yoga clássica”, é a ciência da yoga ensinada nos Yoga Sūtras de Patañjali.

Sri Aurobindo (1872-1950) participou do movimento libertador da Índia e em 1921 estabeleceu a Yoga Integral, também chamada de Yoga Supramental.

Alguns mestres vieram para o Ocidente a partir do século XX e foram gradativamente estabelecendo as suas linhagens. Os mais notórios foram:

Paramahansa Yogananda (1893-1952), autor de Autobiografia de um Iogue (1946). A partir da sua chegada no Ocidente em 1920, passou a ensinar a linhagem de Kriya Yoga, que é um sistema antigo de yoga revivido nos tempos modernos por Mahavatar Babaji através de seu discípulo Lahiri Mahasaya, mestre de Sri Yuktesvar Giri, por sua vez mestre de Yogananda.

Swami Sivananda (1887-1963), enviou ao Ocidente diversos discípulos que estabeleceram escolas e centros.

Swami Kuvalayananda (1883-1966) dedicou-se ao estudo científico moderno e benefícios médicos da prática da yoga.

Tirumalai Krishnamacharya (1888-1989) guru de quatro professores de hatha yoga que se tornaram os grandes responsáveis por popularizar a yoga postural pelo mundo no século XX: Indra Devi (1899-2002), Sri K. Pattabhi Jois (1915-2009), B.K.S. Iyengar (1918-2014), T.K.V. Desikachar (1938-2016).

Uma lista das escolas e estilos de yoga atuais, com suas datas de surgimento:

1920: Kriya Yoga, ensinada por Paramahansa Yogananda.

1921: Yoga Integral, ensinada por Aurobindo.

1948: Ashtanga Vinyasa Yoga, ensinada por Sri K. Pattabhi Jois

1948: Yoga de Síntese, ensinada por Swami Sivananda.

1955: Fundação da Ananda Marga (Ananda=bem-aventurança, marga=caminho) por Prabhat Ranjan Sarkar. Seu discípulo, Sri Sri Anandamurti, ensinou o Tantra Yoga, que se tornou a base prática da Ananda Marga.

1964: Escola de Yoga de Bihar, fundada por Swami Satyananda, discípulo de Swami Sivananda.

1966: Yoga Integral, ensinada por Satchidananda, discípulo de Swami Sivananda.

1968: Kundalini Yoga, também conhecida como Laya Yoga, ensinada por Yogi Bhajan, introduzida nos EUA.

1969: Sivananda Yoga, ensinada por Swami Vishnudevananda, discípulo de Swami Sivananda.

1970s: Iyengar Yoga, ensinada por B.K.S. Iyengar.

1970s: Bikram Yoga, criada por Bikram Choudhury.

1970s: Yin Yoga, com raízes nas artes marciais e no taoísmo, fundada por Paulie Zink.

1982: Forrest Yoga, derivada das Yoga Sivananda, Iyengar e Ashtanga Vinyasa, criada por Ana T. Forest.

1983: Kripalu Yoga, criada por Amrit Desai.

1984: Jivamukti Yoga, derivada do Ashtanga Vinyasa Yoga, criada por David Life e Sharon Gannon.

1992: Isha Yoga, fundada por Jaggi Vasudev.

1997: Anusara Yoga, derivada do Iyengar Yoga, criada John Friend.

O termo “Viniyoga” na verdade não denota um estilo, mas o caráter individual de ensino do yoga, adequado e específico a cada estudante. Este era o método seguido por Sri Krisnamacharya e seu filho, também um grande professor, T.K.V. Desikachar.

Essas são todas derivações conectadas à Índia, ao hinduísmo. Com a aceitação ampla do conceito de “yoga” no Ocidente, o termo tem sido também transferido a sistemas similares de meditação e exercícios que não são de origem indiana. Exemplos:

Tsa lung Trul khor, prática do Budismo Tibetano, descrito como Yantra Yoga, por Chogyal Namkhai Norbu.

Kum Nye, prática tibetana, às vezes denotada Kum Nye Yoga, ou Yoga Tibetana.

As Seis Yogas de Naropa, compiladas pelo monge indiano Naropa (1016-1100) e transmitidas ao seu discípulo Marpa Lotsawa.

Shin Shin Toitsu-do, um sistema de “unificação do corpo e da mente” criado por Nakamura Tempu nos anos 40 e também conhecido como Yoga Japonesa.

Daoyin, similar à prática taoísta na China, parte de um sistema de meditação amplo que inclui Qigong e Taijiquan.

Conclusão

No decorrer dos últimos anos, a yoga tem sido transformada mais do que em qualquer outro momento desde o advento da Haṭha Yoga no século XI. Como afirma White (2011): “De fato, a yoga que é ensinada e praticada hoje tem muito pouco em comum com a yoga dos Yoga Sūtras de Patañjali e outros tratados de yoga antigos. Aproximadamente todas as nossas afirmações populares sobre a teoria da yoga datam dos últimos 150 anos, e muito poucas práticas dos dias de hoje datam de antes do século XII.”

Em meio a tantas técnicas e práticas, ainda que transformadas no tempo, umas distorcidas e outras mais puras e preservadas, e outras tantas inovadoras, o que podemos fazer é desejar que cheguem como ensinamentos e práticas benéficas às mais variadas pessoas. Que sirvam às pessoas para ampliarem sua consciência. Que cada um pratique o que é proveitoso para si, com a motivação correta, na direção de realizar o que sempre foi e sempre será o objetivo profundo da yoga: união com o que há de mais profundo em nós. O reconhecimento da verdadeira natureza da mente e completa liberação do sofrimento.

Que haja virtude!

Referências

WHITE, David Gordon. Yoga, brief history of an idea. 2011.

Wikipedia. List of yoga schools. Disponível em: <http://en.wikipedia.org/wiki/List_of_yoga_schools> . Acessado em: 10 abr. 2018.

Lucas Ghisleni
Lucas Ghisleni
Professor de yoga e meditação do Espaço Maitri. Graduado em Física, pós-graduado em Transformação de Conflitos e Estudos de Paz e professor do programa Cultivating Emotional Balance.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.